Quero uma pedra no rim
Quero uma pedra no rim. Quero sair do trabalho, no final do dia, sentindo um desconforto abdominal. Quero sentir a sensação aumentar enquanto eu dirijo pra casa. Quero chegar com uma dor muito forte. Quero pedir para minha mulher “coloca a chaleira no fogo e me traz uma bolsa de água quente. Tô com pedra no rim!” Quero vestir meu pijama com esforço e velocidade desajeitada, para me deitar o quanto antes possível. Quero sentir o calor reconfortante da minha cama, mesmo que eu não consiga permanecer quieto sob o edredom. Quero sentir o alívio de uma dor super-insuportável passar para somente uma insuportável - “ai, que bom...” Quero um beijo carinhoso. Quero sentir o queimar se movimentar lentamente do rim à bexiga. Quero andar pela casa vigorosamente, para fazer a pedra descer, acompanhado de minha filha de 3 anos que imita soldado, dá risada e, agora, menos preocupada, me faz tirar um sorriso não sei de onde. Quero tomar muita água, encher o copo muitas vezes, ir ao banheiro outras tantas – “sai, desgraçada!”. Quero urinar sangue. Quero um reike amoroso e um cafuné inocente. Quero ficar bom, mas só 2 horas de dor até que não é tanto. Ao lado de minha filha que dorme, quero conversar com a mulher que amo sobre a vida, fazer planos para o futuro me sentindo renascido. Quero acordar no dia seguinte com uma voz de criança perguntando “melhorou, papai?” Quero uma pedra no rim todo dia 27, pelo menos.
Tive, ontem, minha quarta cólica renal. A segunda do lado direito. E foi maravilhoso.
Não sou de reclamar, mas...

Nos últimos 4 dias de férias, nosso carro estragou duas vezes (vela e vidro elétrico do motorista) e eu fiquei com uma dor chatíssima na cervical, garganta inflamada e uma inédita gengivite/estomatite que me impossibilita fechar o maxilar pois mordo a gengiva. Ou seja, não posso mastigar nem engolir sólidos. Perdi 5kg em uma semana, entre líquido e peso de fato. Pra piorar, fui ao médico e ele escutou um sopro no meu coração, que nunca havia percebido. Como minha irmã tinha isso e precisou operar, me encagacei. Fiz uma ecografia mas, graças a Deus, tudo normal e perfeito.
Domingo, comecei a sentir as dores de minha quarta pedra no rim. Sorte que não passou de um mal-estar e, logo após, urinei seus dejetos com sangue.
Depois ainda falam de stress causado por excesso de trabalho. Já viram stress por férias?

Artesa

Sou só eu ou alguém também já ficou instigado com essas feirinhas de artesanato espalhadas pelo Brasil?

Magrinhosamente chamado de "artesa" na capital gaúcha, trazem em si o apelo de ícone da cultura de cada local. Nenhum turista deixa de visitar uma feira dessas em suas viagens. Procura-se levar para casa uma pulseira, um colar, uma renda ou um artigo de decoração representativo dos hábitos e costumes tradicionais do povo em questão. Acontece que, não importa onde se esteja - Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Recife, Palmas, Porto Alegre (só para citar capitais) -, o que é vendido, no grosso, são as mesmíssimas coisas: os mesmos brincos de capim dourado ou de pena, as mesmas bonequinhas coloridas , os mesmos vestidos rendados. O valor do souvenir varia de acordo com o fluxo de visitantes estrangeiros no local ou com o aluguel/condomínio, no caso de "franquias" em shoppings centers e aeroportos.


Mas afinal de contas: essas peças são representativas de onde se encontramos as mesmas em todos os lugares? Quem as produz de fato? Pergunte a um dos feirantes se ele conhece o artesão daquelas bijuterias; a bordadeira daqueles panos; o escultor daqueles paus e ferros. É claro que não. Aposto que todos compram de alguns poucos distribuidores, senão de um só. Pra mim, é tudo feito em escala industrial. Deve ter uma máquina especialmente desenvolvida para fazer aqueles desenhos de areia colorida das garrafinhas, se é que não é uma massa compacta com a paisagem pintada simulando a técnica original.

Pra mim, vem tudo da China, com qualidade américa-do-sul.

Pensando e Fazendo Merda - Manias e truques

VOLUME 2 - Lustrando a louça alheia

Por mais que você tenha um intestino britânico (em termos de pontualidade) como o meu, volta e meia uma emergência pode ocorrer e é preciso visitar a casinha de algum restaurante, aeroporto ou de amigos. O banheiro de nosso lar é um porto-seguro, mas contar só com ele é um luxo até para os mais organizados. Quando se está fora, nem sempre se consegue a concentração suficiente para fazer o que é necessário com desenvoltura e plenitude. Preocupações das mais diversas conturbam nossa mente motivadas pela sujeirada que estamos produzindo en rodeo ajeno.

Aqui vão umas dicas preciosas que vão tornar menos traumático o ato fora de nosso habitat.

Em locais onde te conhecem:
- preparação - antes de mais nada, ao entrar no toilet, certifique-se de que há papel higiênico suficiente e que a porta pode ser trancada; existem locais em que a fechadura não funciona ou é daquelas em que se precisa dar um jeitinho;
- respingos - cada vaso e cu diferem um do outro, seja pela inclinação da louça (que pode receber, ao invés da água, a massa pútrida diretamente sobre si, deixando marcas difíceis de sair) seja pela anatomia do seu próprio corpo (que pode despejar o dejeto em qualquer lugar do desconhecido receptáculo); por isso, aconselho que uma singela folha de papel higiênico seja, delicadamente, colocada sobre a água, avançando sobre alguns centímetros das paredes da cerâmica, para que receba seu presente sobre ela; isso irá garantir que não respingue na sua bunda (a conseqüência mais trágica do "tibúrcio"), nem que você deixe marcas na louça;
- cheiro - você não quer "perfumar" o ambiente, claro; uma excelente técnica é, depois de finalizado, não levantar do assento para que o odor malígno não tenha liberdade de circular; puxe a descarga ainda com as nádegas coladas na tábua, mas tome extremo cuidado para que o turbilhão de água não as molhe; fique no tenteio, pronto para erguer-se ao primeiro sinal de alguma gota; só após realize a limpeza, mas nunca utilize-se de artifícios como desodorantes de ambientes; não há nada pior do que cheiro de bosta com bom-ar;
- ruídos - abrir a torneira, o chuveiro ou puxar a descarga são os recursos mais conhecidos para que os pssss, pfffs e prprprprprpr sejam disfarçados.

Em locais onde não te conhecem:
- tirando a dica anterior da preparação, ignore todas as outras. Vá fundo. Cague com vigor. Cague tudo. Você não sabe quando terá um banheiro por perto novamente. Os outros que se fodam. Ninguém vai te ver de novo. Saia do banheiro com um sorriso de dever cumprido. Não precisa nem dar aquela fungadinha para fingir que não foi você o responsável. Liberte-se. Não tem nada melhor do que uma boa cagada.

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