A música de Kleiton & Kledir para Pelotas

Eu tenho dificuldade de entender letras diretas demais. Prefiro aquelas que não dizem tudo na cara, que deixam margem à imaginação. Aquelas em que, mesmo que eu não compreenda totalmente, tenha a liberdade de fechar os olhos e pintar o quadro que eu quiser. Esse sou eu, músico. Não entendi a exaltação da platéia quando Kleiton e Kledir tocaram, em primeira mão, a ode à Pelotas, no palco do Guarany, há quase dois anos atrás. As pessoas puseram-se de pé. Aplaudiram entusiasmadas. Ovacionaram. E eu perplexo. Não engoli o "pa-ra-le-le-pí-pe-do". Me desceu atravessado. Nem o "bem-casado" e o "cristalizado" foram mais palatáveis. Citar todos os locais da cidade com didática de um livro escolar não me convenceu.

Semana passada recebi de várias pessoas o link do You Tube para assistir o clipe da canção. Todos adorando e eu, novamente, engasgado, cético, aturdido pela inocência das pessoas. Confesso: até gostei do "dia de jogo" e do "merece". Mas não era possível que bastasse se fazer uma lista com todos os locais da cidade e organizá-los em versos, rimar Areal com Laranjal para que o sucesso fosse garantido.

Gravei o especial deles no Canal Brasil, que passou há uns 3 meses. Resolvi ver hoje. Apresentaram as músicas do novo trabalho. Depois de um grande período sem gravar, estavam de volta. Na minha memória, o último registro que valia a pena da dupla era o disco que trazia a versão para "Bridge Over Troubled Water" e a música "O Analista de Bagé", entre outras. Tudo que veio depois, parecia uma tentativa frustrada de ser o que não eram mais. Faltava o frescor, o descompromisso, a ingenuidade e a sinceridade. Mas lá pela terceira música do especial, algumas frases melódicas, algumas sequências de palavras, algum sorriso, sei lá... Algo fisgou aquele guri dentro de mim, que lá pelos 8 anos ouvia os LPs dos Ramil na casa de minha tia, e que acompanhava as letras dos encartes, verso a verso; que decorara as vírgulas e as respirações de cada faixa; que descobria a música de uma forma tão peculiar, com histórias de um lugar tão perto, mas tão perto, que parecia estar dentro de mim. E pior que estava. Em frente à casa da minha tia, na Rua Apolinário Porto Alegre, onde passei muitos Natais, onde furei os vinis de tanto ouvir, certa vez estavam Kleiton e Kledir. Esperavam o Papai Noel chegar na casa de algum parente que eu não sei bem quem era. Meus primos todos foram falar com eles, pedir autógrafo. Mas não eu. Fiquei espiando de trás da porta, com minha timidez eterna, minha reverência esquisita. Lembrei disso agora, não sei por quê. Na verdade, nunca esqueci, mas as novas canções do especial da TV me fizeram reviver. O tempero original estava ali. Era Kleiton e Kledir de volta, como antes. Muito material bom e cheio de inspiração. Quando tocou a homenagem à musa Pelotas novamente, mais explícita ainda, por conta das fotos ilustrando cada esquina, cada bairro, cada monumento citados, meu coração já estava aberto, destrancado, aceitando qualquer rima previsível, qualquer palavra óbvia, qualquer melodia repetitiva. Baixei a guarda e juntei-me àquela platéia de pelotenses ufanistas de dois anos atrás. Só não aplaudi, nem gritei porque minha mulher estava dormindo ao lado e as crianças no outro quarto.

Daqui a pouco, minhas filhas irão começar a ter as experiências musicais que levarão para sempre. Quais delas terão o poder de destrancar a fechadura de seus corações e torná-las alvos fáceis da emoção boba e inexplicável?

Big 2

Sim, o imbecil aqui veio de novo no Big. Estou escrevendo este texto, na fila. Pelo menos pra isso serve este tempo de espera. Voltei porque tem coisas que eu não encontro em outros lugares. Aí, eu tenho que vir aqui, pelo menos, de dois em dois meses. Meu plano era fazer as compras no final da manhã, pelas 11h, mas fiquei preso na agência até o meio-dia e quinze. Não deu. Resolvi sair mais cedo, de tarde. Às 18h, me arranquei. Santa ingenuidade. É uma péssima hora. Uns 5 caixas abertos e umas 10 pessoas em cada fila.
Podem me xingar.

Uma família na minha frente veio com 5 pessoas. Que falta do que fazer. O caixa questionou àquela que parecia ser a mãe:
- Como vai pagar?
- Posso parcelar?
- Pode.
- Em quantas vezes?
- Quantas quiser, mas tem juros, senhora.
- De quanto?
Óbvio que a caixa não sabia. Estava prestes a sair em busca da informação. Quase me desesperei em pensar de depois de meia hora na fila ainda teria que esperar ela conseguir a resposta. Fui salvo pela cliente que disse:
- Espera aí. Quanto deu mesmo?
- 68,50.
- Ah, bom! Achei que fosse uns 200. Então, eu faço à vista mesmo.

Neste momento ficou claro pra mim o nível de falta de noção desse tipo de consumidor que frequenta o Big. Eu incluído.

Estou ficando famoso

O site Noite & Cia., do qual sou colunista, acabou de receber uma notificação extrajudicial, de uma grande rede de lojas de artigos femininos, por conta de um texto meu. O artigo, que originalmente publiquei aqui neste blog, é uma crônica bem-humorada sobre "um plano infalível de assaltar a loja tchã-nã-rã" inspirado pelo o tocar incessante do alarme do estabelecimento em um dia de funcionamento normal. Obviamente, como não quero sarna-pra-me-coçar, escrevi agora "tchã-nã-rã" em substitituição ao nome da loja. Também aproveitei e retirei as citações no referido texto deste blog. No comunicado, o advogado da loja alega que eu incentivei uma ação criminosa e "ousada" (adorei esta parte) e que infrigi a lei sei-lá-das-contas que poderia me render de 3 a 6 meses de cadeia ou multa. O cara foi bem mais criativo do que eu. Ele também sugere que a coluna seja retirada do ar imediatamente para evitar processo judical ao veículo. Como foi feito. Diogo Mainardi que me aguarde.

Musicalda Fenadoce



Márcia Casarin acompanhando o desenrolar de sua iniciativa.

Estive participando do processo de seleção do Musicalda Fenadoce, na condição de assistente, assessor, por aí. Trata-se de um festival competitivo de música autoral - uma promoção do CDL Pelotas para a 17ª Fenadoce. Com coordenação de Rui Madruga, jornalista e músico, e auxilio luxuoso de Felipe Pita, a ideia lançada pela empresária Márcia Casarin foi tomando forma há cerca de 3 meses apenas, mas não tarde demais para que 255 músicas fossem inscritas.

70% das obras foram de Pelotas, mas artistas de todo o País mandaram material, inclusive sendo selecionados para a etapa semifinal (com apresentação ao vivo) nomes de Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina.

O motivo deste meu post é comentar a qualidade que a primeira edição do festival está demonstrando. A organização está impecável, os jurados são de primeira, o profissionalismo, ética e imparcialidade apresentados são de tirar o chapéu. Só para exemplificar o compromisso da equipe, o equipamento para a audição na triagem, que elegeu os 20 selecionados e os suplentes, foi sensação: caixas Yamanha N10 conectadas a um amplificador profissional, em flat, e uma placa de som Line 6 impressionou os jurados. Eles tinham experiências bem mais modestas em outros festivais mais importantes e tradicionais.

Apesar do já sucesso do evento, pessoalmente, me decepcionou um pouco a ausência de nomes expressivos do pop/rock, da cidade e do estado, que conheço. Se tivesse havido uma presença mais marcante desse segmento, como eu esperava, teria-se criado um problema em selecionar entre tantas bandas boas. Fiquei meio desapontado neste aspecto apenas. Creio que houve uma descrença na proposta multigênero do evento. Mesmo assim, conseguimos destacar um grupo excelente de canções e intérpretes com reais condições de se estabelecerem no mainstream nacional. Tem pagode, samba, hip hop, reggae, mpb, nativismo, instrumental, emo, etc. Todos os ingredientes para um festival bastante competitivo e interessante sob o ponto de vista da representatividade artística e social. Eles estarão concorrendo a uma premiação distribuída de 14 mil reias. São 5 mil para o primeiro colocado. Sem falar na ajuda de custo que somará outros 10 mil reais. São poucos os festivais que investem tanto nos músicos.

Minhas expectativas são as melhores. Estou muito entusiasmado e feliz de fazer parte disso. Viva a música! Pena que por uma questão ética não pude inscrever a minha banda, Água de Melissa. Devido à falta que falei acima que senti, creio que estaríamos selecionados, certamente, sem falsa modéstia.

As duas semifinais acontecem nos dias 8 e 9 e a finail dia 10 de junho, às 20h, na Praça de Alimentação da Fenadoce. Você pode votar em sua música preferida, ajudando a eleger a mais popular, através do site www.fenadoce.com.be/musicalda, até dia 9 de junho.

Acabou a discussão: "tele-entrega" é com hífen

Antes da reforma ortográfica, a disussão era constante. Uns defendiam que o prefixo "tele", por não exigir hífen, gerava "telentrega". Outros, mais radicais (que vão na raiz do problema), eram enfáticos: "tele-entrega". A justificativa era que "tele", significa distância (telecomunicação, comunicação a distância; televisão, visão a distância; telefone, som a distância) e "tele-entrega" não é entrega a distância, mas telefone-entrega, ou seja, entrega realizada por solictação telefônica. Portanto, "tele" não tem valor de prefixo; é a forma reduzida da palavra "telefone". Mesmo que essa simplificação não seja formalmente permitida na língua portuguesa, para ficar menos errado, seria exigido o uso do hífen.

Eu, por outro lado, sempre preferi pensar que, se foi construído um verbete popular de forma imprópria, problema dele; sua escrita não deveria continuar colaborando com o equívoco. Que fique errado o significado, mas que escrevamos conforme a regra ortográfica. Sendo assim, sempre escrevi "telentrega". Até porque, a segunda vertente é bem menos assimilada e conhecida do que a primeira e as chances dela ser uma baita de uma viagem é maior ainda.

Porém, depois da reforma que uniu as ortografias dos países de língua lusitana, a discussão foi pro saco. Diz a nova regra que quando a vogal final do prefixo é igual a inicial do radical, usa-se o maldito tracinho. É o caso de "micro-ondas", coitado. Difícil de se acostumar.

Se você ainda tem a pulga atrás da orelha, acha feio ou tem medo que digam que está errado, use "delivery", "telepedidos", "telecompras" ou "ligue pra gente".

Pode conter traços de lactose

Minha filha tem intolerância à lactose. Descobrimos há uns 2 meses. Estamos no período de desintoxicação para, depois, verificar qual o limite exato dela para laticíneos. É a "doença da moda". Uma infinidade de gente com problemas digestivos crônicos, nunca antes diagnosticados, estão sendo enquadradas como deficientes na produção de lactase (enzima de nosso corpo que processa a lactose - é como a insulina para o açúcar).

Além dos alimentos óbvios que estão na lista negra, como iogurte, queijo, manteiga e o próprio leite, outros que nem imaginamos precisam ser verificados. A visita ao supermercado agora leva 3 vezes mais tempo, pois tenho que ler a listagem de ingredientes de todas as embalagens. Todas as maioneses industriais que encontrei têm ácido lático. A maioria das margarinas também. Pães de sanduíche tem soro de leite. Os mais variados tipos de biscoitos também. Até biscoito de água e sal tem. A marca Zezé (www.zeze.com.br) é uma das poucas, senão a única, em matéria de biscoito, própria para quem sofre desse mal.

O mais ridículo é quando encontramos a inscrição "pode conter traços de lactose". A afirmação indica que o alimento foi processado por uma indústria que manipula leite no mesmo espaço ou no mesmo "tacho" em que o produto em questão. Além da informação imprecisa, pra mim, é o mesmo que dizer "não temos condições higiênicas de limparmos com eficiência nossos equipamentos ou de lavarmos nossas mãos e só não colocamos a inscrição 'pode conter traços de asas de moscas, antenas de baratas e cocô de morcego' porque a Anvisa não exige".

E aí? Você prefere ingerir traços de urina de rato ou de lactose?

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