Troca-troca

Escrevi este texto para meus padrinhos. Foi baseado na realidade de suas personalidades mas, claro, a história é ficção.

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Troca-troca

Ele não vai ao médico. Ela não faz lentilha. O impasse tem quase 10 anos. Quando querem cutucar um ao outro, ela destrincha seu discurso sobre a saúde dele, ele reclama que ela não prepara o prato que tanto quer. Ela é cozinheira de mão cheia. Sempre uma receita nova. Não tem medo de ousar. Mesmo assim, ele não deixa passar: “e a minha lentilha?”. Aproveita o dom gastronômico da mulher e se farta. Os banquetes lhe agradam a alma e ao paladar. Sedentário, a cintura e a pressão aumentam. “Luis Antônio, não tá na hora de fazer um check-up?” Pronto. É motivo para ele fechar a cara e não se falarem por dias a fio. Certa terça-feira, ela teve uma ideia.

- Luis Antônio.
- Zzzzzzz
- Luis Antônio!
- Ã, o quê? O quê?
- Tava pensando...
- Cof, cof, rrrrrr... Ã... Fala.
- Quem sabe a gente faz um... troca-troca?
- Quê?
- Q-u-e-m  s-a-b-e  a  g-e-n-t-e  f-...
- Eu entendi essa parte. Mas que história é essa de troca-troca?
- Ué. Eu só tava pensando...
- Nunca fui homem disso, Maria Clara.
- Não seja por isso, tu nunca foi homem nem pra ir ao médico...
- Ah, tá. Vai começar de novo com isso?
- Tá, tá, tá. Calma. Mas eu tô falando sério sobre o troca-troca.
- Que isso, Maria Clara? Eu aqui trabalhando e tu me vens com sacanagem?
- Ai... Quase 40 anos de casamento e parece que tu não conheces.
- Então me explica. Então me explica que eu já tô ficando nervoso com esse troço.
- “Troca-troca” assim: primeiro tu vai ao médico fazer um check-up...
- Eu falei para não falar disso.
- Então não falo! Não falo mais nada! Cansei!

E ficaram uma semana sem se falar de novo. Só que ele não conseguia parar de pensar na conversa da esposa. Sempre foi um homem fiel, dedicado à família. Agora a patroa vinha com essas modernices. “Só pode ser a menopausa ou coisa parecida”. Por outro lado, já estava com mais de 60, muitos de seus amigos estavam divorciados e contavam as vantagens em serem solteiros e voltarem à puberdade. Matutou alguns dias e decidiu aceitar a proposta. Afinal, teria a oportunidade de aproveitar os prazeres da vida na companhia de sua parceira eterna. Muito melhor do que qualquer outra opção que só os fizessem sofrer. Estava decidido. Ia encarar o tal troca-troca. Chegou em casa sexta à noite e a chamou:

- Maria Clara!
“Ué, resolveu falar”, ela pensou.
- Quê, Luiz Antônio?
- Sabe aquela história?
- Que história?
- Do... Do...
- Fala, Luis Antônio.
- Do... Do troca-troca.
- Ah. Sei.
- Pois é, eu pensei melhor e acho que pode ser legal.
- É mesmo?
- É.
- Puxa, não sabes como eu fico feliz em ouvir isso?
- Quando podemos fazer?
- Quando tu quiser. Só tenho que ligar e marcar.
- Eu já convidei o Paulão do shopping e a esposa dele.
- Quem?
- É... Ele ficou meio assim, mas acabou concordando.
- Ã?
- Gente finíssima. O Paulão é boa pinta... Ela, mais ou menos. Mas aí, azar o meu, né? Ele convidou até mais um casal amigo deles. Não sei direito quem são, mas levo fé no Paulão.
- Quê?
- Tá tudo combinado!
- Mas Luiz Antônio... Vais trazer 4 pessoas pra comer minha lentilha?
- Que lentilha?

Diga que não estou

Diga que não estou; que saí; que fui viajar; que não posso atender; que ligo depois. Diga que estou em reunião; que estou sem voz; adoentado; amolado; resfriado; que fui ao banheiro; que ainda não cheguei. Fui almoçar, volto logo. "O ramal está ocupado. Quer deixar recado?" Fale que não estou atendendo; que estou em outra ligação ou não me achou em minha mesa. Fale que estou dormindo, com dor de cabeça. Cheguei tarde ontem. Invente qualquer coisa, como que fui comprar cigarros e não voltei. Diga que ninguém me viu hoje ou tem notícias. Ninguém sabe de mim. Que fugi; desapareci. Não deixei bilhete nem avisei a ninguém. "Ele não levou o celular." Mande ver se estou na esquina. Diga que morri.

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BRASIL , Homem , de 26 a 35 anos

 
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